sábado, 14 de maio de 2011

ARRUME O CABELO! LAVE O ROSTO!

Essa semana, em meu estudo devocional, li alguns escritos de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) e me chamou bastante atenção o que ele escreve sobre uma passagem bem conhecida da Bíblia a respeito do jejum: “Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto...” (Mt 6:16-18a).
Ele discorre sobre o significado de arrumar o cabelo, ou ungir a cabeça, e de lavar o rosto. Ensina que durante o jejum, a pessoa deve se encher de alegria (ungir a cabeça) e guardar o coração de toda e qualquer impureza (lavar o rosto), além, é claro, do significado óbvio que é o de não ostentar, ou não se ensoberbecer, no pano de saco.
Fiquei refletindo sobre isso e se essa instrução também não se aplica quando algo “ruim” nos acontece, quando somos frustrados em nossos planos ou quando simplesmente ouvimos ‘NÃO’ de Deus. É comum, ao sermos desapontados, mostrarmos a nossa ‘cara emburrada’ ao mundo. Nós nos sentimos no direito de mostrar que estamos tristes, emburrados, chateados, desapontados... Esperamos que alguém note e venha nos perguntar o motivo do nosso ‘cabelo desarrumado’ e de nosso ‘rosto feio’. E se isso acontece está aí a oportunidade de despejar toda nossa amargura, insatisfação, revolta e raiva. Mas, ainda que seja tão comum isso acontecer, não é isso que Deus nos ensina.
Quando os filhos do sacerdote Arão foram mortos por oferecerem sacrifício profano a Deus, Moisés foi incisivo com Arão e seus outros filhos: “Não andem descabelados, nem rasguem as roupas em sinal de luto, senão vocês morrerão e a ira do Senhor cairá sobre toda a comunidade. Mas os seus parentes, e toda a nação de Israel, poderão chorar por aqueles que o Senhor destruiu pelo fogo” (Lv 10:6).
Deus não nos impede de chorar por nossos lutos, nem de lamentar o que foi perdido ou não deu certo, mas ele nos adverte sobre o que nosso comportamento público pode gerar nas outras pessoas. E Arão tanto entendia isso, que ficou em silêncio, mesmo em face da morte dos dois filhos (Lv 10: 3). Ele sabia que qualquer manifestação da sua parte poderia gerar algo ruim entre o povo. Ora, ele era o sacerdote e seus filhos foram mortos. Toda a nação o respeitava, o amava e sentia a sua dor. Qualquer manifestação de revolta de sua parte poderia gerar, por consequência e em dimensões muito maiores, uma revolta em massa contra Deus.
Ele sabia do erro de seus filhos e que o Senhor os havia punido com justiça. Mas a comunidade entenderia dessa forma se ele se descabelasse e rasgasse suas vestes? Se ele tivesse feito isso, que tipo de sentimento e de atitude ele geraria entre o povo? Talvez raiva do Senhor? Talvez divisão entre o povo de Deus? Talvez uma apostasia da fé?
O que muitas vezes não percebemos é que ignoramos essa advertência e, inconscientemente ou não, manipulamos as pessoas a terem uma visão equivocada sobre o caráter de Deus. E o caráter de Deus é esse: Ele é amor. Sua vontade é boa, perfeita e agradável, seus planos são de paz e TODAS as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Arrumemos os nossos cabelos e lavemos os nossos rostos, pois, sendo da forma que esperamos ou não, Deus sempre tem o melhor para nós!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A BORBOLETA

Já estavam todos sentados e com os olhos fechados. Passava um pouco das 8 horas, horário que – na base da Jocum – separamos para a intercessão. Talvez só eu estava com os olhos abertos, naquela quente terça-feira, sentada numa das cadeiras brancas de plástico da base e ao redor da mesa oval que compõe o refeitório. Gosto daquela mesa. Ela tem uma base de concreto ou de pedra, não sei bem. E o tampo dela é de madeira, oval, imponente... Acho-a muito bonita, mas não foi a mesa que me chamou a atenção naquela manhã.
Talvez estivesse na quinta ou sexta oração quando algo caiu ao chão e me chamou a atenção. Não só minha, de uma aluna também que estava ao meu lado. Em silêncio e tentando não atrapalhar os outros, nós nos aproximamos. Era uma borboleta saindo do casulo.
Eu conheço a história da lagarta que vira borboleta. Sempre gostei dessa “parte” da natureza, tem um “Q” de romantismo como nas histórias de conto-de-fadas em que a gata borralheira vira a princesa. Na verdade, nunca tinha visto isso acontecer realmente. Sempre desconfiei daqueles documentários em que a câmera zoom flagrava o exato momento da borboleta surgindo, achava que era mais um truque de cinema. Mas agora, estava eu ali, observando tudo e achando que apenas mataria minha curiosidade e nada mais.
A borboleta caiu da parte inferior do tampo da mesa. Seu casulo deveria estar preso ali, em algum lugar, mas não se equilibrou com a luta desesperada da borboleta em se livrar daquela casa apertada e começar a voar. Ela se debatia no chão. Seus pezinhos (ou seriam as patinhas?) se esforçavam pra romper o casulo. Era como se ela usasse número 40 e estivesse num jeans tamanho 36. Que luta! Ela tentava com todas as suas forças, dava a última energia que tinha e depois aquietava, como se estivesse tomando fôlego para mais uma tentativa. Ela não desistia. Seu esforço a fazia dançar no chão, girava, voltava para o mesmo lugar, parava, recomeçava... Coitada! Não tínhamos como ajudá-la. Qualquer toque dos meus dedos, ainda que da forma mais delicada, poderia estragar tudo. Também temia que ela não conseguisse. Percebi os olhares atentos de um pardal. Com certeza, ele esperava a nossa saída para preparar seu almoço. E eu ali torcendo para que ela conseguisse sair logo do casulo.
A essa altura eu não sabia mais o que acontecia ao meu redor. Nem em que pé estavam as orações e intercessões. Sem constrangimento algum, estava absorta na borboleta e em sua gana de se desprender daquilo que a limitava, daquilo que lembrava sua antiga vida como lagarta, daquilo que a impedia de voar...
Ora, por pior que fosse aquele momento, era um momento mágico. Um período de transição únicoque aquela borboleta só viveria uma vez. Parece tão simples, mas que interessante como coisas simples conseguem ministrar às nossas vidas. Quantas vezes não somos como aquela borboleta? Quantas vezes não passamos por essa mesma fase de transição? Ansiamos por voar. Ansiamos por nos desprender, desembaraçar-nos daquilo que nos impede de prosseguir. Não suportamos mais a velha vida, nem nada que a lembre, queremos ir, voar, sair do chão e ganhar as alturas. Sim, nós somos como as borboletas.
Porém, creio que algo nos difere. A borboleta não desistirá até sair completamente do casulo. Ela sabe que sua vida depende disso. Ela não conseguirá sobreviver se parte do seu minúsculo corpinho ainda estiver dentro do casulo. Ela não descansará enquanto não deixar completamente aquela casca. Que bom seria se tivéssemos essa mesma determinação, de não desistir, de não voltar atrás, de não se acomodar, de não descansar até que a obra em nossas vidas esteja completa. É o ciclo da vida para a borboleta. É a plenitude da vida para nós.
Saí do refeitório e deixei a borboleta lá, não poderia mais acompanhá-la. Não sei qual foi o desfecho de sua dura missão, nem ao menos se ainda vive pelos jardins lá da base. Mas sei que ela penetrou em meus pensamentos e me fez refletir. E me fez questionar. E me fez desejar sair dos casulos da minh’alma. E me fez sonhar com o dia em que serei totalmente livre pra voar de volta ao jardim da minha saudosa e eterna casa...

quarta-feira, 16 de março de 2011

O VENTO DO CATAVENTO

Pelo quinto ano consecutivo, estávamos nós, a caminho de Guriri, para mais um impacto evangelístico de carnaval. A previsão era de chuva para todo o feriado, mas os planos dos foliões de passar esses dias no balneário mais badalado do Estado continuavam de pé, e os nossos, de ir para lá, também.
Chegamos de madrugada, talvez às 4 horas, não lembro... Para quem acordoumuito cedo, precisar algum horário depois da meia-noite é um pouco complicado. Nossa casa, nosso quartel general, nossa igreja e nosso refúgio nesses dias era um colégio. Em poucos minutos as salas foram ocupadas e tivemos algumas horas de descanso.
O sábado de carnaval amanheceu nublado, como amanheceria todos os dias seguintes. A metereologia estava certa e a chuva não daria trégua! Quando chegou a noite e com ela a minha responsabilidade de levar uma reflexão à equipe, pudemos compartilhar um pouco do sentimento de Cristo com relação às multidões. “Quando Jesus saiu do barco e viu uma grande multidão (EM GURIRI), teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar-lhes muitas coisas...”(Mc 6: 34).Meditamos sobre compaixão e sobre duas palavras que nunca andam juntas: CRISTIANISMO e CONFORTO. O que Jesus faria se pudesse caminhar pelas ruas de Guriri em pleno carnaval de 2011?
Mesmo debaixo de chuva, fomos para a avenida. Nosso ‘abadá’ verde nos uniformizava e chamava a atenção das pessoas. Não foi difícil notar os olhares curiosos, alguns maldosos e outros bastante maliciosos sobre nós. Mas saímos do colégio com a proposta de termos sobre aquela multidão o mesmo olhar compassivo de Jesus.Percebemos, então, a grande presença de crianças nas ruas.
A chuva acelerou a nossa volta, mas não aquietou nossos pensamentos que ficaram lá, naquela grande multidão de crianças nas ruas do carnaval, expostas a todo tipo de violência, abuso e exploração. O dia seguinte seria longo e ainda na caminhada de volta ao colégio começamos a planejar o que faríamos para alcançar nossos pequenos foliões. É claro que Deus já havia compartilhado algumas ideias principalmente com quem já estava acostumado a trabalhar com as crianças. E, uma das estratégias, era a fabricação de cataventos.
Nunca fiz um catavento. Na verdade, até o carnaval nem sabia qual a utilidade de um,principalmente qual seria o propósito de um desses em Guriri. Mas, saímos na tarde de domingo soprando bolinhas de sabão, fazendo peças teatrais infantis e com os cataventos na mão. Arranjamos um lugar coberto – que seria o nosso point nos outros dias – instalamos nossos equipamentos e chamamos as crianças.
Eu encontrei o André. Um menino de 5 ou 6 anos que estava com sua irmã em Guriri. Ele veio assistir as peças e, com olhar atento, não perdia nada do que acontecia. Ele sentou-se bem ao meu lado e eu, ao lado dele, estava com um catavento na mão.
“- André, você sabe como o catavento se move?”, perguntei.
“-Não!”, ele respondeu rapidamente. Eu, então, fiz como o tio Roland havia me ensinado. Empurrei o catavento pra frente e pra trás e soprei, fazendo vento e fazendo o catavento girar.
“- É o vento que faz ele girar!”, deu um grito, como quem faz uma grande descoberta.
“-Sim, é o vento. Você acertou. Mas, e se esse catavento fosse você? Quem seria o vento que te moveria, André?”, perguntei. Não esperava que ele fosse me dar uma resposta, na verdade, já me preparava pra reparar minha pergunta, trocar por uma outra “mais fácil”. Mas, antes mesmo que eu formulasse algo, André me surpreendeu.
“-É Deus, tia. Ele é o vento do catavento!”.
Não, não fiquei boquiaberta e nem espantada. Fiquei fascinada pela forma como Deus se revela. Ele é simples e se mostra de forma simples aos simples! Não falei mais nada para o André, apenas sorri para ele, mostrando toda minha aprovação e felicidade por sua resposta. Outras crianças chegaram, a programação continuou, muitas outras coisas aconteceram à noite e nos demais dias. Pessoas foram impactadas, quebrantadas, reconciliadas com Cristo. O VENTO DO CATAVENTO não somente marcou a minha tarde de domingo, como moveu o coração de muitas pessoas naquela multidão. Moveu o meu, moveu o de André, moveu o da multidão e continuará movendo com seu sopro de vida, com seu olhar de compaixão...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Chá de Panela Virtual

Gente, estou de casa nova! Eu me mudei, agora no início do ano, para o meu apartamento. Na verdade, é um apErtamento, como diz meu pai, rs..., mas é bem aconchegante e acolhedor. Desde já, vc é meu convidado para uma visita. Mas avisa antes tá? Sabe como é né? Pra dar tempo de fazer uma comidinha bem gostosa e te receber! Como estou lá há pouco tempo está faltando algumas coisinhas. Se vc quiser me trazer de presente...rs... Aí vai a lista:

- Uma vassoura de pelo;
- Um conjunto de potes para guardar alimentos (feijão, arroz, café, etc...)
- Um porta temperos;
- Um porta papel toalha de fixar na parede;
- Uma tampa de vaso sanitário redonda e branca;
- Uma torneira de cozinha com filtro, para fixar na parede;
- Um micro-ondas;
- Um liquidificador;
- Um galão de tinta para parede de 1,8 litro, a base de água, cor: verde musgo;
- Um galão de tinta para parede de 3,6 litros, a base de água, cor: creme;
- Lixas para madeira e parede;
- 250gr de argamassa;
- Tinta branca para madeira (para pintar um armário de 3 partes);
- Verniz para madeira;
- Mão de obra de um pintor de parede;

Se vc quiser ajudar doando algumas dessas coisas, eu serei muito grata! Não esqueça de me avisar para que eu possa retirar o item da lista e não ganhar nada repetido!

Contato: fabiana.tostes@hotmail.com

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Agência: 1034
Conta Poupança: 03990-0
Operação: 013

BANCO DO BRASIL
Agência: 3480-0
Conta Corrente: 10.138-9

Obrigada e que Deus te abençoe!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Retrô da Fabi

Ontem à noite eu sentei diante da TV. Ultimamente, por estar de férias, tenho feito muito isso. Mas ontem foi proposital. Queria ver o programa que faria uma retrospectiva dos fatos importantes que marcaram o mundo em 2010. Fiz tudo o que eu precisava fazer antes, para estar livre para assisti-lo. Acho que o programa durou mais de duas horas e durante todo o tempo eu fiquei lá, sem levantar sequer para ir ao banheiro – não queria perder nada.
Lembrava da maioria dos fatos que iria passar ali, mas isso não impediu que eu me comovesse novamente ao ver o desespero dos haitianos com aquele terremoto horrível que matou quase 300 mil pessoas. Ou com o sofrimento dos nossos compatriotas de todas as partes do Brasil que perderam tudo com as chuvas e enchentes deste ano. Como não chorar junto com a mãe que perdeu o filho assassinado por causa do engano de um policial? Como não lamentar ver cenas tão chocantes de crueldade de pais para com seus filhos, de marido para com suas esposas, de jovens para com os seus velhinhos?
Percebi que a maioria dos fatos registrada no programa era triste. Quantas tragédias! Assassinatos, chacinas, terrorismo, acidentes, desastres naturais, roubos, perdas, mortes, a desclassificação do Brasil na Copa... Quanto motivo para chorar! Que ano difícil! Como conseguimos chegar ao final, se tudo, todas as circunstâncias insistiam para que parássemos na metade?
Mas, enfim, chegamos! Hoje é o último dia do ano e nós, inteiros ou quase inteiros, estamos aqui. É interessante como todos os dias estamos expostos há milhares de coisas, a diversas experiências, mas, ao que me parece, somente as ruins nos marcam a ponto de nos fazer relembrar.
O programa terminou e eu senti falta de alguns fatos que também ocorreram este ano. Acho que você também sentiu. Senti falta de relembrar a bondade e a fidelidade de Deus que nos permitiram chegar até aqui. Senti falta dos fatos que marcaram a nossa vida pessoal e que de alguma forma nos transformaram em pessoas melhores. Senti falta das experiências que passamos que nos fizeram crescer e nos prepararam para o próximo ano, para que tivéssemos um verdadeiro ANO NOVO.
Será que em duas horas conseguiríamos narrar todas as coisas maravilhosas que Deus nos fez e nos permitiu viver? Conseguiríamos contar todas as suas dádivas e bênçãos sobre as nossas vidas? Fico pensando nas coisas que vivi. Esse ano não foi um mar de rosas pra mim. Foi um ano difícil. De muitos desafios, decepções, frustrações... Mas seria muito ingrata se terminasse assim minha retrospectiva. Foi um ano de sofrimento, mas também de amadurecimento. Foi um ano desafiador, mas de muitas oportunidades. Foi um ano de caminhada pelo deserto, mas também de muita provisão vinda do céu. Deus esteve comigo, como prometera, todos os dias do ano!
Sou grata aos novos amigos que conheci e conquistei. Grata às coisas que aprendi, às experiências que vivi. Sou imensamente grata às histórias de vida que compartilhei, aos novos lugares que pisei, às viagens que fiz. Grata pelo trabalho cumprido, pelas ideias sugeridas, pelas inovações que chegaram. Sou grata pela compreensão a mim estendida, pelos ouvidos emprestados, pela mão segurando a minha, pelos passos dados ao meu lado. Dou graças pelos infortúnios. Pelas lágrimas. Pelas tristezas. Obrigada, Deus, porque eu me frustrei comigo mesmo. Obrigada porque cada decepção me aproximou mais ainda de Ti, do meu verdadeiro Amor. Sou grata a você, 2010! O ano em que pude ver a mão do Senhor! E com meu coração aberto e cheio de esperanças digo... Que venha 2011!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A HORA DA DESPEDIDA

6h10. Conforme combinado na noite anterior, Xaxá me balançou e me acordou. Ela já tinha tomado banho, já estava quase pronta e eu coçava os olhos preguiçosamente, adiando pular da beliche e me arrumar. Olhei pra outra beliche do quarto e Charlene ainda estava dormindo. Ela se recusava levantar antes que eu. No nosso quarto, Xaxá sempre era a primeira a acordar. Ela levantava, tomava banho, vestia-se e saía com a Bíblia. Tudo no maior silêncio prá não acordar ninguém. Eu levantava em seguida e a Charlene era sempre a última. Sempre foi assim e nessa manhã de domingo não haveria de ser diferente. Fiquei alguns minutos olhando para o teto, mas levantei. Não podia me atrasar.
Eram 6h47 e lá estava o tio Roland. Pontualíssimo, ele ajeitava as últimas coisas do carro para nos levar ao Aeroporto. Xaxá desceu com uma única mala, vermelha, e por isso sobrou lugar no carro para eu e Charlene irmos também. Domingo de manhã na Rodovia do Contorno é bem diferente do restante da semana. Não havia trânsito, nem obras, nem engarrafamento e, graças a Deus, nenhum acidente. Não sei se por sono ou pela circunstância, fizemos o trajeto até o Aeroporto em silêncio.
Às 7h16 tio Roland estacionou, em fila dupla e por isso não poderia demorar. Ele deu um abraço na Xaxá e Charlene deu em seguida. Eles entraram no carro e voltaram para a base, eu decidi ficar. O check-in foi rápido e nos deu tempo para tomar um café. Saímos da base em jejum, mas como tudo é muito caro no Aeroporto, só tomamos um cafezinho expresso enquanto aguardávamos a chamada para o vôo. “Às 7h50 eu vou”, disse Xaxá entre um gole e outro de café e uma olhada para o cartão de embarque. Ela foi sentar na cadeira de espera e eu não quis mais olhar o relógio.
Não lembro a data exata que conheci a Xaxá, ou melhor, a Oxaene. Pernambucana, de sotaque marcante, ela decidiu ser missionária na Jocum após fazer a escola inicial. Desde que foi para a base de Vitória, ajudava em tudo, mas principalmente na Escola de Treinamento e Discipulado (Eted) treinando, aconselhando, cuidando, servindo os alunos. Aliás, esse era o seu maior dom, a meu ver. Ela sempre foi muito sensível às necessidades de quem estava ao seu redor. Cuidadosa, não media esforços para servir e fazer qualquer um se sentir bem. Tinha estômago pra fazer curativos e paciência pra cuidar dos enfermos. Se alguém da base passasse mal, já sabíamos quem chamar para acompanhar ao hospital. E ela ia, com muito prazer!
Logo que me mudei pra base ocupei uma cama no quarto dela. Isso foi em 2008 e, de lá prá cá, muitos outros obreiros chegaram e saíram. Mas nós continuávamos no mesmo quarto. Aliás, nosso quarto era muito especial. Era o mais legal! Depois que voltou da África, Charlene também foi para lá e formamos o F.O.C. – Fabiana, Oxaene e Charlene. Éramos mais do que apenas colegas de quarto, formamos uma amizade profunda e sincera. Quando acabava nossa jornada de trabalho, subíamos para assistir TV, conversar e comer. Saíamos juntas, compartilhávamos nossas coisas e até nos uníamos pra fazer faxina no meu apartamento. Que programa!
Mas acho que foi nas viagens missionárias da Eted que conheci nelhor a Xaxá. Sua maneira de lidar com conflitos, de confrontar e trazer a verdade, de cuidar das pessoas e principalmente de manter a calma em situações adversas me ensinaram muito. A forma humilde como ela se colocava diante de cada desafio. Seu quebrantamento ao dizer para Deus: “Senhor, eu não sei o que fazer!”, uau! Como ministrou em minha vida e como suas características faziam com que formássemos uma boa dupla de trabalho. E não só no ministério. Normalmente era ela que suportava meus choros e lamentações, tristezas e murmurações que eu insistia em não guardar só prá mim. Quantos conselhos ela me deu! Quantas vezes orou por mim... Ainda ouço o eco da sua voz dizendo: “Fabi, guarda o coração!”...rs... Ah, Xaxá...
Foi quando ouvi a chamada do seu vôo que percebi que ainda tinha muita conversa pra pôr em dia, muito conselho pra escutar, muita oração pra pedir... Mas não dava mais tempo, eram 7h50, hora de embarcar. Sabia que ela ia embora, há dias sua passagem já estava marcada, mas não sei porque razão fui adiando o momento de dizer para ela o quanto sua amizade era importante pra mim, o quanto essa irmã mais velha foi fundamental em minha vida. E agora, no momento que achava eu mais propício para agradecê-la por tudo, me faltava tempo, me faltavam palavras...
Eu a abracei e foi tudo. Meus lábios cerraram e meus olhos começaram a lacrimejar. Tanta coisa pra falar e não consegui emitir nenhum som a não ser a fungada de lágrimas que não me obedeciam mais, corriam pelo meu rosto. Acho que nunca vou me acostumar com despedidas. Mesmo já estando há quatro anos num contexto de missões, em que vemos constantemente pessoas indo e vindo, não me acostumo a dizer adeus aos que amo. Não mesmo.
Não esperei o avião decolar, saí do aeroporto e fui a pé para a casa dos meus pais. Coloquei óculos escuros para disfarçar os olhos vermelhos, mas as lágrimas não respeitam protocolos. Elas continuavam a cair. A caminhada até em casa fora mais longa que o normal e eu me perguntava se algum dia eu iria rever a minha amiga Xaxá. Bom, ainda hoje não tenho uma resposta. Quem sabe uma hora dessas eu sou respondida... Quem sabe uma hora dessas eu reencontro a minha amiga... Uma hora dessas, quem sabe?!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ela vai se casar com um príncipe!!!

Eram 15hs quando cheguei ao local marcado. De longe, já as avistei, sentadas no ponto de ônibus, me esperando. Cinco meninas, de 10 a 13 anos, do nosso projeto social Casa Gileade ganharam um tratamento capilar num salão de beleza deslumbrante e eu ficara responsável de levá-las até lá. Elas não estavam sozinhas, Charlene, uma das professoras do projeto que funciona em Flexal 2, no bairro onde elas moram, tinha as levado de ônibus. A viagem atrasara, já que neste dia o sistema de transporte estava em greve. Elas tinham saído de casa às 12h30 e a maioria nem sequer tinha almoçado.
Entramos no salão, lotado! A sala de espera era um verdadeiro paraíso, com café e água à vontade, cadeiras confortáveis e ar refrigerado, contrastando com o calor sufocante que fazia do lado de fora. Logo ao entrarem, as meninas foram notadas, os olhares vinham de todos os lados do salão, mas não as deixou constrangidas. Elas se sentaram e começaram a comentar as notícias de famosos que passava na TV.
Detesto esses programas! Em meio a um cenário de guerra no Rio de Janeiro e do caos causado pela greve de ônibus aqui na Grande Vitória, um programa consegue falar de tantas futilidades como a roupa brega da atriz fulana de tal, ou o novo namorado de uma pop star dessas qualquer. Mais interessante prá mim naquela sala era o café quentinho que acabava de ser passado, mas os olhos das meninas nem piscavam diante do mundo ‘maravilhoso e perfeito’ dos ricos e famosos. Elas imitavam os trejeitos dos artistas, riam com suas gargalhadas, tentavam pronunciar palavras em inglês, até eu – já com meu cafezinho em mãos – comecei a prestar atenção ao programa. Era uma risadaria só, até que todas ficaram em silêncio para a grande reportagem do dia: o noivado do príncipe Willian, da Inglaterra.
Kate, a noiva escolhida pelo herdeiro real, apresentou-se num vestido azul, de braços dados com Willian, diante da imprensa mundial. Seu cabelo, escovado e bem esticado, cobria parte do seu rosto e cobria tanto que as meninas chegaram a torcer o pescoço para ver o rosto da sortuda e dar a sentença final: se ela era ou não bonita suficiente para ocupar o cargo de princesa. E, depois de tanta concentração, Amanda, uma das meninas que esperava para dar um jeitinho no cabelo me cutucou. “– Ela deve ser muito feliz, né tia?! Ela vai se casar com um príncipe!!!”.
Amanda tem 13 anos, é negra, e mora no Flexal 2 desde que nasceu. Toda sua família mora lá. Como toda menina dessa idade, tem seus conflitos com a família, com a escola, com ela mesma, mas também tem sonhos, muitos sonhos. Ela participa da Casa Gileade há algum tempo, recebe instruções, reforço escolar, alimentação, acompanhamento pedagógico, lições de artes e esportes e aconselhamento para a vida. Ter 13 anos e morar numa comunidade pobre e violenta não é bem o sonho de ninguém, mas apesar disso, Amanda tinha sonhos.
Antes de entrarmos no salão, ao me aproximar delas no ponto de ônibus, notei bem para onde estavam voltados os olhos da Amanda. Ao lado dela estava um adolescente, de no máximo 15 anos, branco, de cabelos lisos e jogados para o lado, estilo ‘Justin Bieber’. Seus olhos brilhavam como quem admira um diamante, como quem vislumbra uma miragem. E como toda miragem que desaparece no vento, segundos depois, o menino deu sinal e entrou num ônibus sem sequer olhar para trás.
Gostaria muito que Amanda fosse uma princesa. Gostaria muito que ela se sentisse uma princesa. Gostaria muito que ela fosse feliz como uma princesa. Feliz como terminam os contos de fadas que talvez ela nunca teve oportunidade de conhecer. Ela nunca viu um palácio, nem nunca andou numa carruagem. Amanda significa digna de ser amada e é isso que eu desejo pra ela. Ainda que pobre, negra e de cabelos crespos. Linda, linda Amanda.
Saímos do salão às 21hs. Famintas, cansadas, mas felizes. Pelo menos um dia de princesa elas tiveram. Uma outra menina, após conferir o resultado do novo penteado, abriu um largo sorriso. “– Agora eu não tenho mais vergonha de olhar no espelho!”. Meus olhos encheram d’água. Como gratidão, elas abraçaram todas as funcionárias, convidaram-nas pra festinha de encerramento da Gileade e oraram pela dona do salão. “Nunca ouvi uma oração tão bonita”, disse a empresária, em lágrimas. Embarquei-as num ônibus rumo a Flexal e fui para casa caminhando, pensando em tudo que havia acontecido. Não sei qual o futuro reservado para essas meninas. Se tenho esperança de dias melhores? Sim, eu tenho. Mas tenho que confessar que também tenho medo. Medo de perdê-las, de vê-las seguindo a mesma triste trajetória de tantas outras meninas da comunidade. Não quero isso. Luto para que isso não aconteça. Mas... Chorei naquela noite. Passados os dias, vi novamente a reportagem do noivado ‘mais badalado do ano’, agora com outros olhos. Kate não era sortuda e nem estava ao lado do príncipe por merecimento. Todas nós somos princesas! Meninas, mulheres, senhoras... Filhas de um mesmo Rei, herdeiras de um mesmo reino. Sonhadoras, felizes, amadas...