quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Orar... Silenciar... Esperar!

"Senhor, o meu coração não é orgulhoso e os meus olhos não são arrogantes. Não me envolvo com coisas grandiosas nem maravilhosas demais para mim. De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma. Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe; a minha alma é como essa criança" - Sl 131.
Em tempos de aflição e ansiedade, acho que essa era a melhor coisa que eu poderia ouvir de Deus. Quando não se sabe o que fazer, o melhor é Orar... Silenciar... Esperar... Para depois, então, ouvir e obedecer! Fazer aquietar a nossa alma, que se perturba dentro de nós e muitas vezes nos faz esquecer daquilo que foi dito e prometido. Parar tudo e se deleitar nos braços do único que pode nos confortar e nos saciar! É a melhor coisa, a única coisa a fazer!
Tenho vivido um tempo de muitas transformações. Alguns notaram isso, quando cortei o cabelo (consegui, criei coragem!), mas a verdade é que as mudanças externas são apenas reflexos do que tem acontecido dentro de mim. Tem sido um tempo de reavaliação, reflexão e mudança. E hoje eu me sinto desafiada a tomar novas e diferentes posturas.
Mas, enquanto todo esse processo se ‘processa’ dentro de mim, quero compartilhar contigo o que tenho feito. Afinal, não dá prá ficar à toa na vida vendo a banda passar, como na famosa canção de Chico Buarque...rs...
Bom, há alguns meses preparávamos a I Conferência de Justiça e Transformação. Tivemos muito trabalho, muitos contratempos, mas ela aconteceu e foi maravilhosa! Debatemos sobre justiça social, visão integral do Evangelho, missão da Igreja, Mordomia da Criação, teologia integral, Reino de Deus, vocação e as sete áreas de influência da sociedade. Quem aceitou o desafio de estar presente foi impactado e transformado. Nossa oração é que toda essa luz recebida gere frutos que se multipliquem a 30, 60, 100 por 1.
Ser influência na sociedade, no meio em que vivemos é mais do que uma oportunidade. É a nossa missão. Sabe, quando entendemos isso, tudo muda! Iniciamos um novo projeto aqui na base, é o Bola da Vez, que envolve os meninos do bairro em aulas de futebol. Uma forma de preencher o tempo ocioso e evitar que eles trilhem caminhos errados. Também é uma boa oportunidade de descobrir talentos e, quem sabe, futuros craques para a seleção brasileira!
O projeto TãoDignas, com as mulheres da comunidade, também tem dado muitos frutos. Todas as terças temos estudos, palestras, oficinas, ministrações, enfim, um tempo de qualidade com as mulheres de Flexal 2. Desenvolvemos muitas atividades com o intuito de resgatar a dignidade e o valor de cada uma delas. Já tem um tempo que estamos juntas, aliás, esse é o projeto que eu mais me envolvo, e isso criou um elo de amizade entre nós. Todas as terças eu as espero chegar e ao vê-las no portão, meu coração se enche de alegria, sei que será mais uma tarde agradável na presença de Deus e de minhas novas amigas!
Como vcs sabem, a base fica no bairro de Flexal 2, temos nos envolvido também no desenvolvimento comunitário desta região. Tantas coisas precisam ser feitas! Às vezes meu coração se enche de indignação ao perceber o descaso com que a comunidade é tratada por aqueles que podem e devem fazer algo. Mas como iniciei lá em cima, às vezes é preciso somente orar, silenciar e esperar! Soma comigo nisso. Juntos veremos muitas coisas acontecer.

Motivo de oração:
• Pela transformação do Flexal 2: Redução dos índices de violência, saneamento básico e coleta de lixo decente, segurança no trânsito principalmente com relação à rodovia do Contorno e qualidade de vida para os moradores.
• Por minha saúde: Fiz exames e estou com anemia.
• Pela viagem à Paraíba: Vou participar de um congresso em João Pessoa nos dias 15 a 19 de novembro. Preciso de pelo menos R$ 700,00. Ainda não tenho essa grana.
• Por 2011: Estou definindo meu próximo ano e preciso MUITO da direção de Deus. Preciso ouvi-lo, mais do que nunca.
Seu apoio financeiro também é muito importante para mim. Se vc quiser caminhar comigo nesta área é só entrar em contato, ou então, contribuir:

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Agência: 1034
Conta Poupança: 3990-0 Variação: 013

Que Deus te abençoe e até a próxima!

sábado, 4 de setembro de 2010

A GRANDE DIFERENÇA

Em julho completou dois anos que eu estou morando na Jocum, no bairro de Flexal 2, em Cariacica. Quando Isabel – na época diretora da base – me desafiou a morar lá e não somente ir uma vez por semana, como eu fazia já há seis meses, não poderia imaginar o que estava a me esperar. Se eu disser que aceitei de prontidão, faltarei com a verdade. Dez em cada dez brasileiros sonham com a casa própria e eu tinha a minha. Estava morando no meu apartamento mobiliado, numa das regiões imobiliárias que mais valoriza no ES, ainda refletindo sobre todas as informações e ministrações recebidas nas escolas de Jocum, em Minas, enfim, estava bem confortável.
Detalhe que mudar para Cariacica e, diga-se, para Flexal 2, nunca fora o meu sonho pessoal. Nem ministerial. A má fama do dueto ‘pobreza e violência’ não estava somente no ‘ouvir falar’. Eu mesmo já tive a oportunidade de chegar ao bairro em meio a um tiroteio. Nunca, até então, tinha ficado em Flexal 2 após às 17h30, mas agora, eu iria morar lá. Eu escolhi morar lá.
Flexal 2 não foge à realidade das periferias brasileiras. Índices baixos de Educação, saúde, saneamento básico e qualidade de vida. Índices altos de violência, gravidez na adolescência, tráfico de drogas e todo tipo de abuso. Meninos que nunca conheceram seus pais e têm a vida interrompida antes de formar família. Meninas que ainda não guardaram as bonecas, mas que já estão no sexto mês de gravidez e há anos fumando crack. Nada novo, nada diferente, nada especial. Claro, se não fosse o fato de morarmos na comunidade.
Quando se quer realmente enxergar a realidade, ela pode muitas vezes se mostrar bem dura. E bem difícil. É impossível estar num lugar e não se envolver com o que o compõe, principalmente quando se está lá pelo Reino de Deus. Lembro quando eu chorei pela primeira vez. Foi ao ver um menino de dois anos com uma hérnia enorme no umbigo, sujo, descalço e com os pequenos dentinhos da frente todos danificados. Porque ninguém fazia nada? Eu não entendia. Porque Deus permitia aquilo? Eu me indignava.
Porém, a situação daquela criança era apenas uma dentre muitas outras. Conheci um pouco da vida das mulheres da comunidade, que atendíamos com distribuição de alimentos. A maioria aprisionada pelo vício do álcool. Famílias destruídas, sonhos despedaçados. Projetos que nunca foram à frente, dignidade que já se havia perdido pelo meio do caminho. Era impactante prá mim saber que um bairro com apenas 30 anos tivesse tantas histórias de dor e tristeza. Não é tarefa simples contar a história de Flexal 2. E lá estava eu, somando com meus poucos colegas missionários que também aceitaram corajosamente o desafio de fazer a diferença em Flexal 2. E que grande diferença!
São apenas dois anos de trabalho, mas quando avalio esse tempo vejo o quanto já foi feito, isso sem contar os anos anteriores de muita semeadura nos campos férteis, repito, CAMPOS FÉRTEIS, de Flexal 2. Hoje, a Casa Gileade atende a mais de 100 crianças que vão regularmente para aprender mais de Deus. Sou testemunha de que novos rumos estão sendo desenhados pela nova geração, que não repetirá os mesmos erros do passado.
O programa de distribuição de alimentos agora abrange outras áreas e 30 mulheres contam, semanalmente, com palestras, aconselhamentos e pastoreio. Uma delas decidiu abandonar o alcoolismo e pediu a nossa ajuda. Outra, há poucos dias, entregou sua vida a Jesus. O programa com as mulheres do bairro, que ainda nem tem nome, tem dado bons e eternos frutos.
Há um mês iniciamos um programa de rádio para conscientizar os moradores em questões ambientais. O programa é divertido e fala, de forma clara, sobre a mordomia da Criação, sobre a nossa responsabilidade com o mundo que Deus criou. Cremos que é possível ter um bairro limpo, bonito e agradável, conforme o desejo de Deus. Não, não é utopia, é escolha. E sabe qual é a grande diferença?
Eu posso ter outro e qualquer outro trabalho, mas eu escolho servir à comunidade de Flexal 2.
Eu posso ser indiferente às problemáticas da comunidade, mas eu escolho amá-la, independente de qualquer coisa.
Eu posso ser mais uma moradora somente, mas eu escolho representar o Reino de Deus e expandi-lo entre as famílias do nosso morro.
Esse é o meu compromisso. E essa é a grande diferença!

terça-feira, 29 de junho de 2010

A oferta e o dvd

Tinha acabado de chegar à casa da minha mãe e a campainha não parava de tocar. Era dezembro de 2007 e eu havia passado o ano todo fora em escolas da Jocum (agência missionária que faço parte). Muitos amigos foram me ver pra me ouvir contar experiências. Havia passado pelo sertão nordestino, maravilhas Deus tinha operado por lá.
Um dos meus amigos, o Marcos, também tinha acabado de chegar. Ele estava trabalhando em Minas e, de férias, resolvera passar alguns dias no Espírito Santo, na casa dos pais. E, saudoso, também fora me ver.
Durante nossa conversa e em meio a tantos testemunhos, Marcos me entregou um envelope. Dentro, havia uma oferta que ele havia separado do seu 13º. para mim. Eram R$ 100,00. Eu agradeci e logo comecei a pensar o que faria com o dinheiro. Planos não faltavam.
Estava com viagem marcada para São Paulo. Minha família iria passar as festas de fim de ano por lá e eu também decidi ir. A forma como eu consegui o dinheiro das passagens daria um novo post! Fiz um ‘brechó’ de roupas que eu não usava mais: terninhos, vestidos... enfim. Consegui o dinheiro das passagens de ida e volta de avião pra Sampa e passaria o reveillon com a família da minha mãe.
Já estava na semana de viajar quando decidi, com a oferta, comprar três dvds. Não eram quaisquer ‘dvds’. Eram dvds com mensagens evangelísticas, mas infantis. Eram para meus três priminhos: Kaio, Pedro e Juliana. Os meninos tinham 3 anos e a Jú, que já tinha enfrentado uma meningite anos anteriores, era mais velha, mas não lembro a idade certa. Essa minha priminha guerreira também daria um outro post.
Enfim... Cheguei em SP e a primeira coisa que fiz foi distribuir os presentes. Ninguém da família da minha mãe era convertido e dar um dvd de ‘Jesus’ era, para muitos, o mesmo que jogar dinheiro fora. Porque não um brinquedo? Porque não uma roupa? Mas no fundo eu sabia que dava um bom presente.
Fiquei hospedada na casa do Kaio e a primeira vez que eu o vi ele estava diante da TV, assistindo um dvd de pagode e, fazendo do seu caminhão um tambor, ele imitava todos os movimentos de um dos vocalistas. Confesso que vê-lo tão concentrado nas batidas da música me intimidou e por um momento eu pensei em desistir de entregar o presente. Mas dei e ele quis assistir. Uma, duas, três... inúmeras vezes. A cada instante ele pedia pra repetir o dvd de ‘Jesus’. Ele estava fascinado! Seus olhinhos não piscavam e ele cantava, com seu simples vocabulário, todas as musiquinhas do dvd.
Passei pouco mais de uma semana lá, orando para que através daquele dvd algo acontecesse no meio da família. Contar como era a família, também daria um outro post.
O tempo passou e algumas coisas foram acontecendo. A mãe do Kaio começou a frequentar a igreja e a avó dele também. Ele, nem se fala, virou um frequentador assíduo. Com seu pequeno tamanho conseguia levar todos da casa com ele. E era encantador saber notícias de que ele aprendera a cantar louvores, ler a Bíblia e entender a mensagem do Evangelho. Algumas coisas mudaram, milagres aconteceram e no início desse mês recebi a notícia de que as duas se batizaram e estão trilhando um novo caminho. O que era impossível aos olhos humanos, tornou-se real. É nítida a mudança da família e a paz já reina naquele lar.
E saber que um dvd infantil contribuiu em grande parte neste milagre! E saber que o dvd foi dado a uma criança! E saber que o dvd foi comprado a partir de uma oferta missionária!
Se as pessoas soubessem que muitos testemunhos como esse acontecem a partir de uma oferta missionária... E também de quantos outros deixam de acontecer pela falta da mesma! Certa vez aprendi algo que, desde então, carrego comigo. Missões são feitas através dos pés dos que vâo, dos joelhos dos que oram e das mãos dos que abençoam (financiam!!!). Mas, claro, isso já é assunto para um novo post!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A sabedoria de Vó Domingas

Sua idade era desconhecida
Mas sua sabedoria era vista
Nas histórias que contava
Nas coisas que dizia.
Ela não era doutora
E falar bem também não sabia.
Mas a todos que se aproximavam
Vó Domingas lhes dizia:
“Deus que te abençoa, guri.
Deus é quem te guia”.

Seus braços eram franzinos
Mas não a impediam de trabalhar.
De dia pilava o arroz todinho
À noite, a mandioca pra ‘cascar’.
A lepra atacou seus pés
Mas ela não deixou de caminhar.
Por Retiro São Bento e por outros cantos
Que sua vontade a fazia buscar.
E onde chegava dizia:
“Vim aqui mas vô vortá pro meu lugá!”

Criou mais de 20 filhos
Uns do ventre e outros do coração.
A matriarca da família
Também juntava os netos na adoção.
Todos vinham até ela
E se juntavam ao redor do fogo a lenha.
Pra ouvir as suas histórias
E compartilhar de suas lendas.
E se alguém ficava doente:
“Vem guri, tomá banho de laranjeira!”

Ler ela não sabia
E em escola nunca entrou.
Mas o tempo lhe deu diploma
E a vida foi quem carimbou.
Conhecê-la foi um presente
E eu agora vou falar:
“Vó Domingas me ensine
O que os livros não me puderam dar.
Deixe-me aprender contigo
O que eu vim pra ministrar.
Diante de ti sou só uma menina
Crua e inexperiente
Dá-me um pouco de sua sabedoria
Para que eu possa seguir em frente.
E com minhas letras e poema
Te farei conhecida...
Pelo mundo e para sempre!”

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Escola

Passava da hora do almoço quando chegamos em Retiro São Bento. A viagem que nos levou até lá fora bem emocionante e o percurso de 186 km (Do centro de Barão de Melgaço até o Retiro) nos revelou o cenário exuberante do coração do Pantanal. Eram 5hs quando nossa equipe entrou no carro de funerária (O carro fretado que nos levaria em parte da viagem) para enfrentar a viagem que prometia ser bem dificil, devido às condições da estrada. Nessa época do ano nem carro e nem barco passam por lá, só mesmo de trator, com uma charrete acoplada na traseira, é que as pessoas conseguem chegar em São Bento. No trator, quase atolamos, quase caímos, quase viramos comida de jacaré, mas enfim, chegamos!
Retiro São Bento é uma vila, formada por aproximadamente 25 famílias, a maioria descendente de duas famílias: a do seu Neco (cujo pai foi o fundador do vilarejo) e da índia Domingas. Todos moram bem perto, talvez prá compensar a 'lonjura' que é chegar nesse lugar, isolado de tudo, no coração do Pantanal. Suas casas são de pau a pique, cobertas por palha e com pouca ou nenhuma mobília. Uma cisterna abastecia de água toda a comunidade e uma escola, bem no meio do Vilarejo, era a responsável pela Educação das crianças da comunidade.
Em apenas uma sala de aula, 16 crianças das mais variadas idades e niveis de conhecimento tentavam aprender noções básicas de Português e Matemática sob o esforço sobre humano do professor Zezinho. A escola estava bem danificada. Suas paredes estavam sujas e descascadas, as portas não tinham fechadura, alguns vidros das janelas estavam quebrados, assim como algumas telhas também. A estrutura não era nada animadora, principalmente para um ambiente escolar.
A escola também era a única estrutura usada pela comunidade para celebrar cultos, festas e reuniões. Era o centro de todos os eventos e datas importantes. Era o 'point' e a referência para tudo e para todos. E lá estava a escola, caindo aos pedaços... E lá estávamos nós, com a missão de levar o Reino de Deus para Retiro São Bento...
Desde que foi fundada, em 1995, a escola nunca fora reformada. Fazer isso em apenas uma semana nos parecia dificil demais, mas não impossível. Era manhã de terça-feira quando, juntamente com o professor, fomos de casa em casa e para todas as famílias compartilhamos sobre a necessidade de reforma da escola e da importância de toda a comunidade ajudar. Passamos toda a manhã e parte da tarde, mas arrecadamos dinheiro suficiente para a compra de tintas e de outros materiais que ainda viriam de Cuiabá e de Barão.
O mutirão foi marcado para o final de semana e no final de semana lá estavam, todos os homens da comunidade. Muitos abriram mão do trabalho e de outros compromissos para estar lá, contribuindo com o que sabiam, dando o que tinham. De toda a comunidade ouvimos os comentários surpresos de pessoas que nunca tinham visto a comunidade unida em prol de um bem comum. As diferenças foram deixadas de lado e lá estava o povo, com a mão na massa, mais precisamente na massa corrida, transformando a escola.
Uma semana depois, exatamente na terça-feira, a escola ficou pronta. Mais uma vez a comunidade se uniu e preparou um bolo enorme para a inauguração. "A escola ficou linda, nem quando foi fundada ela ficou tão linda assim" era o que todos diziam. Mas lindo mesmo foi ver a comunidade unida no trabalho e orgulhosa pelo resultado, pelo fruto de suas próprias mãos.
Sabe, isso é Reino de Deus. Deus não se preocupa apenas com a salvação da alma. Ele também se preocupa com o desenvolvimento de uma comunidade, com a reforma de sua única escola. Pois é Ele o maior 'Reformador'. Ele é especialista em transformar coisas velhas, feias e sem graça em 'lindas escolas'. É isso o que Ele sempre fez. É isso o que Ele sempre faz. Foi isso que Ele fez em minha vida e é isso o que Ele deseja fazer com o mundo todo.
Passamos duas semanas em Retiro e com certeza, a reforma da escola foi o marco de muitas coisas que ainda acontecerão nesta comunidade. Em mim ficou marcado e como uma boa saudosista, ficaram também as doces lembranças de um povo guerreiro que unido pode muito, muito mais. Hoje estou em Barão, ainda com forças para mais duas semanas de missões nas terras pantaneiras. A saudade tem apertado bastante, mas ontem, o abraço do menino Inácio de boas-vindas me fez sentir que há muito ainda que fazer por aqui.
Até a próxima amigos...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O aniversário do Inácio

Nunca conheci nenhuma criança chamada Inácio. Prá mim, Inácio sempre foi nome de adulto. De adulto e de presidente, só. Até que aqui, em Barão de Melgaço, essa linda cidade pantaneira, fui apresentada a um garotinho franzino, de cabelos claros e crespos, de cabecinha redonda e sorriso cerrado nos lábios. De poucas expressões, mas de um olhar profundo e brilhante. Ele é filho de um casal da igreja com que temos trabalhado. Já estamos na quarta semana e colecionamos muitos amigos por aqui. Ele também mora nos arredores e sempre vem nos visitar.
Inácio tinha um sonho. Já se aproximava sua quarta primavera e tudo que ele mais queria era uma festinha. Ele nunca teve uma festa de aniversário. Sua família, bastante carente, nunca teve condições de lhe proporcionar tamanha alegria. Mas, devido a insistência de Inácio, sua mãe decidiu usar o dinheiro do 'Bolsa Família' para fazer a festa.
O dia marcado era sábado. Após o culto tradicional, o salão da igreja seria o cenário do sonho de Inácio. Fiquei reparando nas pessoas que chegavam. Havia muitos rostos diferentes, provavelmente convidados de Inácio. Ele, no entanto, pouco os percebia. Estava sentado, num dos primeiros bancos, de vermelho e jeans, apertava os dedos da mão, numa demonstração clássica de nervosismo e ansiedade. A cada cinco segundos seu olhar buscava a porta. Onde estaria o bolo? Quando então as luzes se apagaram e o bolo, de cobertura azul, apontou na entrada da igreja, Inácio deu o mais belo sorriso de todo o Pantanal. Num pulo ele foi parar na reta por onde o bolo passaria. Ninguém conseguirá definir em palavras o tamanho da felicidade de Inácio.
Horas antes, ajudamos a encher as bexigas do aniversário e fizemos uma vaquinha pra comprar um presentinho. Sabe, não havia muitas coisas na festinha, era o bolo, pipocas, refrigerantes, algumas bexigas e quase nenhum presente. Mas para Inácio, bom para Inácio era o paraíso! Era a realização de um sonho, do seu tão esperado sonho... Feliz aniversário Inácio!

ATIVIDADES

Além de termos o privilégio de compartilhar e contribuir com a alegria do povo pantaneiro, nessas últimas duas semanas nós fizemos diversas atividades. Evangelizamos em escolas, no Festival de Pesca, ensinamos na igreja, fizemos visitas na vizinhança e um censo para conhecer melhor a comunidade da Vila do Recreio, onde temos morado.
Percebemos que a maioria das pessoas não terminou o Ensino Fundamental, não têm os documentos básicos e nem um emprego estável. Temos encorajado a igreja local a ser resposta a essas e outras necessidades. Nessa semana, vamos para Retiro São Bento e São Pedro de Joselândia, no coração do pantanal. Lá nosso desafio será ainda maior. Quer ir comigo?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Meu Pé-Di-Reito-Sem-Unha

Sempre ouvi dizer que entrar num lugar com o pé direito era sinal de sorte. Há quem faça malabarismos para sair da cama e pisar no chão, primeiro, com o pé direito. Se isso atrai bons fluidos em não sei, só sei que meu pé direito tem passado por maus bocados...
Ainda estava em Vitória quando percebi algo estranho na unha do dedão. Ela estava escura, fofa e solta. Não sei ao certo quando começou, mas depois qeu percebi, não tirei mais os olhos da unha. Também não sei ao certo a razão dela ter ficado assim, imagino ter sido por causa de um sapato fechado e apertado que eu usei. Mas há quem diga que o motivo foi a ação de fungos, outros, que a culpa foi da pobre da manicure que fez meu pé há muito tempo. A razão eu não sei, mas desde então, por via das dúvidas, não usei mais sapatos, nem fui à manicure e fiquei bastante atenta para não deixar nenhum bichinho chegar perto do meu dedão.
Os dias foram passando e a unha não melhorou, apesar dos meus cuidados. Tive que me acostumar à nova rotina de não pisar de qualquer jeito e nem em qualquer lugar. Mas ainda assim tive de tomar a dificil decisão de cortar a unha, jogar fora a parte podre e deixá-la ainda mais exposta.
Dramas à parte, foi uma decisão dificíl. Quem nunca levou uma topada ou arrancou a cabeça do dedão que atire a primeira pedra. Eu estava com medo. Medo de sentir dor, medo da vergonha de ter um dedo sem unha. Medo da situação piorar. Mas era a única saída: enfrentar o alicate.
Bom, bonito, bonito meu dedo não ficou, como pode-se ver pela foto. Mas, com os meus cuidados ele está melhorando. Ele está ficando saudável. E não precisa ser bonito, o que importa é ter saúde, não é isso o que dizem?!!...rs...
E ele, o meu pé direito, tem me acompanhado. Esteve comigo no comissionamento em Vitória, entrou comigo no avião para Cuiabá, tem suado comigo nos dias quentes dessa terra tão linda, tem mergulhado nos rios pantaneiros, tem entrado nos lares desse povo simples, hospitaleiro e de fala corrida, tem conhecido e compartilhado de sua cultura, de sua comida, de seus costumes... Apesar de sua debilidade, ele tem cumprido fielmente sua missão: Tem me conduzido, dia após dia...
E enquanto escrevo vem à minha cabeça que minha vida bem poderia ser comparada ao meu pé direito. Às vezes partes de mim estão feridas e machucadas, talvez devido a escolha de entrar em "sapatos fechados e apertados", ou ainda, não por culpa minha, mas pelo fato de ser atacada por "fungos". Ou, quem sabe, por permitir que 'manicures' mexam onde não deveriam. Nunca será fácil enfrentar o 'alicate da cura', mas meu descanso é saber que assim como estou cuidando do meu pé direito, há Alguém, maior do que eu, cuidando de mim.
Ah, e é claro, ainda existe aquela promessa: 'Quão formosos são os pés dos que...', bom, acho que todo mundo sabe o restante!

DESAFIO PANTANAL
De: 21 de abril a 15 de junho
Atividades: Ações sociais e humanitárias, evangelismo, discipulado, recreação infantil, palestras em escolas, impactos em praças, igrejas e ruas.
Como ajudar: Oração e apoio financeiro.
Contato: fabiana.tostes@hotmail.com
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Agência: 1034
Conta Poupança: 00003990-0
Variação: 013